Com fortes dores no peito, o educador Paulo Freire foi internado na manhã de primeiro de maio no Hospital Albert Einstein em São Paulo. Os exames revelaram que em uma das coronárias havia várias obstruções. No hospital, ele sofreu dois infartos. Um deles, na madrugada do dia 2 de maio, foi fulminante. Paulo Freire morreu aos 75 anos. Autor de mais de 40 livros, traduzidos em 28 idiomas. Cidadão honorário de nove cidades brasileiras. Condecorado 24 vezes com medalhas, comendas e prêmios de vários países. Doutor honoris causa em 28 universidades.
Convidado oficial de 54 países dos cinco continentes.Homenageado com uma estátua em Estocolmo, capital da Suécia, e (como faz questão de registrar sua segunda mulher, Ana Maria Araújo Freire) nome de uma rua em Itabuna no sul da Bahia... Paulo Freire foi o educador brasileiro mais conhecido, respeitado e festejado em todo o mundo.
Educação não é neutra
Por mais de 50 anos, Freire produziu centenas de textos, reflexões, palestras, debates e depoimentos sobre a educação. Mas a obra que o tornou mundialmente conhecido foi a Pedagogia do Oprimido, escrita em 1968, quando o autor estava exilado no Chile (veja cronologia abaixo). Nesse livro, Paulo Freire expõe de maneira sistemática a essência de seu pensamento pedagógico. Para ele o processo educativo nunca seria politicamente neutro, mas sim uma ação cultural que resultaria numa relação de
domínio ou de liberdade entre os seres humanos. Certo de que o Brasil era dividido em classes com interesses vitais antagônicos, Freire identificava aqui a existência de uma educação voltada para a dominação. Nela, a seu ver, o processo educativo seria rígido, autoritário e avesso ao diálogo com os alunos. Produziria professores empenhados em ter alunos dóceis e passivos e em dar aulas formais e distantes da realidade dos estudantes.
Pedagogia flexível
O que essa pedagogia da dominação tentaria impingir, escrevia Freire, seriam os interesses dos latifundiários e industriais, a burguesia, no jargão da Sociologia. Do outro lado, estariam os dominados: operários, camponeses, assalariados. A eles, a pedagogia da libertação poderia dar conhecimentos e suscitar reflexões que lhes possibilitassem tomar consciência de serem explorados e de que poderiam mudar tal situação. Necessariamente essa pedagogia teria de ser flexível, participativa e incentivar ao máximo o diálogo entre mestres e alunos. A tal proposta, Paulo Freire adicionava uma espécie de método de trabalho (veja ao lado) que alcançou sucesso internacional. De 1989 a 1991, envolveu-se com a
política formal, ocupando a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo a convite da prefeita Luiza
Erundina, do Partido dos Trabalhadores (PT).
A TRAJETÓRIA
Dos anos 50 aos 70. os intelectuais se deixaram arrebatar pela certeza de que as injustiças só seriam
superadas se o povo chegasse ao poder. O embate de idéias culminou com o golpe militar de 1964.
Acompanhe as datas mais significativas nesse, e em outros períodos, da vida do educador.
1921
Paulo Freire nasce em Recife, em 19 de setembro. Órfão aos l3 anos de idade, recebe uma
bolsa de estudos de um colégio particular. Em 1959 forma-se em advocacia, escolhido por
ser o curso mais próximo às Ciências Humanas. Não exerce a profissão
Alice Hattori
Paulo Freire: livros traduzidos em 28 idiomas e
nome de rua em Itabuna, na Bahia
1944
Casa-se com a professora Elza Maia Costa de Oliveira, com quem teria cinco filhos. Começa
a lecionar Português no Colégio Oswaldo Cruz. De 1947 a 1957 dirige o setor de Educação e
Cultura do Sesi, Serviço Social da Indústria
1964
O golpe militar o surpreende em Brasília, onde coordenava o Programa Nacional de
Alfabetização lançado pelo governo João Goulart. O educador passa 70 dias preso e parte
para o exílio, de onde só voltaria 15 anos depois
1968
Exilado no Chile. depois de uma rápida passagem pela Bolívia, escreve o seu Pedagogia do
Oprimido. Paulo Freire começa a ser conhecido e traduzido em vários países. Mora nos
Estados Unidos e, em 1970, transfere-se para a Suíça
1979
Depois de ter a expedição de seu passaporte negada pela ditadura por muitos anos, Paulo
Freire volta ao Brasil. É convidado a lecionar na Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e na Pontifícia Universidade Católica paulista (PUC-SP)
1988
Viúvo em 1986 de sua primeira mulher, Elza, casa-se com a
historiadora Ana Maria Araújo Freire (foto)
Eduardo Albanello
1989
Em primeiro de janeiro toma posse como secretário Municipal de Educação de São Paulo, na
gestão da prefeita Luiza Erundina (PT). Deixou o cargo em 27 de maio de 1991. No período
foi criticado por colegas, professores e membros do PT
O MÉTODO FREIRE
Reconhecido e aplicado nos cinco continentes, o "método Paulo Freire" é uma proposta em que
pedagogia e política estão entranhadas. Junto com o ensino das letras, sílabas e palavras, dizia
Freire, os alunos deveriam ser incentivados a entender seu papel na sociedade. Por mais humilde que
fosse, todo ser humano seria um "fazedor de cultura", quer dizer, teria um repertório cultural rico como
o de qualquer outra pessoa de formação mais acabada. O processo de alfabetização propriamente
dito deveria ser iniciado com palavras conhecidas pelos alunos. Seriam as "palavras geradoras". O
exemplo clássico é tirado do esforço de alfabetização feito com os operários que construíam Brasília,
nos anos 60. Escrevia-se uma palavra geradora conhecida por eles:
TIJOLO
Em seguida, a mesma palavra era grafada com suas sílabas separadas:
TI-JO-LO
No passo seguinte, eram apresentadas as "famílias fonêmicas" das três sílabas:
TA - TE - TI - TO - TU
JA - JE - JI - JO - JU
LA - LE - LI - LO - LU
A sala era, então, convidada a formar palavras com as novas sílabas. O método continuava com a
apresentação das vogais e de palavras com um grau maior de dificuldade, por exemplo as com
dígrafos - lh, nh, ss, rr... - como TELHADO ou MASSA.
Disponível em: http://novaescola.abril.com.br/ed/139_fev01/html/exc_pfreire.htm